



- Será que eu estou ficando louca? - Ela disse enquanto entrava em um quarto e via a si mesma sentada no chão mexendo em alguns discos.
- Isso depende. Você continua tomando seus remédios? A psiquiatra disse que isso ia te manter longe dos seus devaneios. - A outra ela respondeu ainda prestando atenção nos discos.
- Então isso é um sonho?
- Bingo!!
Ela estava bem confusa, mas já que era um sonho não se importou de tudo aquilo parecer muito estranho.
Logo reconheceu o lugar. Estava em seu quarto, mas ele estava diferente. Não tinha janelas, nem luz. Mas dava pra ver as coisas com clareza.
- Posso sentar ai com você?
- Você que sabe. 
Ela entrou devagar e sentou ao lado dela mesma.
- Porque eu estou sonhando comigo?
- Eu sou você lembra? Acho que não sei responder isso.
- E você está aqui por algum motivo?
- Eu não lembro de ter comprado esse disco - a outra ela levantou o vinil do House Martins e mostrou pra ela. - Quando você comprou ele?
- Ué. Mês passado. Se você sou eu deveria se lembrar!
- Eu sou o seu antigo eu. Aquele que você deixou de lado há bastante tempo.
As coisas começaram a fazer um pouco mais de sentido. Afinal a outra ela era mais bonita de certa forma. Ainda tinha os cabelos compridos, uma expressão calma e olhos inocentes.
- Mas como assim eu te deixei pra trás?
- Acho que foi há alguns meses quando você deixou de acreditar em tudo.
- Isso quer dizer que você é minha consciência?
- Não. Se eu fosse sua consciência teria dito pra você não cortar o cabelo. Eu sou mais uma lembrança.
- Mas meu cabelo está feio?
- Não. Só está muito curto.
A outra ela levantou e começou a olhar os livros na estante.
- Porque aqui não tem janelas, nem luz? 
- Acho que aqui é sua mente. Porque os livros que você ainda não leu estão com as páginas em branco. - A outra ela virou e mostrou as páginas. O livro tinha capa, mas nada escrito. - Já os que você leu tem tudo escrito. Viu?
- Mas se essa é minha mente deveria ter muita luz. Sempre adorei janelas abertas.
- Aqui costumava ser bem iluminado.
- E o que fiz de errado pra ficar tudo escuro desse jeito?
- Eu acho que você fechou sua mente para o mundo.
- Eu te prendi nesse escuro só por que deixei de acreditar?
- Sim. Mas a culpa não é sua. Ao menos espero que não seja.
- Me perdoe por te prender aqui. Temos medo do escuro.
- Sim, mas se você imaginasse uma luminária já seria de muita ajuda!
- Claro! - Ela fechou os olhos e lembrou de uma luminária que ganhou quando tinha 14 anos, com uma luz bem colorida. Logo o quarto ficou bem iluminado.
Elas sentaram juntas novamente e começaram a conversar.
- Você ainda é feliz como costumavamos ser?
- Acho que não. Pelo menos ultimamente tudo está dando errado.
A outra ela fez uma expressão de que entendia porque ela tinha o rosto tão triste agora. Como se carregasse muitos pesares nos ombros.
- Você ainda gosta dele?
- Não.
- Que bom. Porque se ainda gostasse eu teria que conversar com a sua consciência pra ela te convencer de que ele era o cara errado.
- Mas somos a mesma pessoa. Você também gostava dele!
- Na verdade não. Eu sempre soube que não daria certo, mas nós acreditavamos que eramos felizes . Por isso que se arrastou por tanto tempo.
- Não falo mais com ele. Só pra você saber!
- Ah que bom! Mas e agora? Você gosta de alguém?
- Eu queria muito gostar de alguém. Mas acho que não acredito em sentimentos.
- Se você me tirasse daqui voltariamos a ser a mesma. Afinal você deve saber que todos os seus sentimentos estão guardados comigo.
- Que bom que eles não se perderam. - Ela sorriu. Mas não era um sorriso muito feliz.
- Você tem sorriso desse jeito ultimamente?
- Como?
- Como se nada no mundo fosse motivo pra sorrir?
- Eu tenho motivos pra sorrir.
- Eu sou você, não se esqueça. E nós não sabemos mentir muito bem.
- Será que eu vou ser como era antes?
- Eu espero que sim. Não gosto de ficar presa aqui.
- Eu sinto sua falta dentro de mim.
- Eu também sinto a sua. O mundo é bonito demais pra eu ficar longe dele.
Ela levantou e ajudou a outra ela a se levantar.
- Só tem uma coisa que eu não entendo.
- Se você não entende acho que também não vou entender. Mas o que é?
- Por que eu deixei de acreditar nas pessoas e no meu próprio coração.
- Eu sei de uma coisa.
- O que?
- Enquanto eu ainda morava em você acreditavamos em tudo isso. E podia não parecer, mas eramos muito felizes.
- Eu prometo que vou dar um jeito de voltarmos a ser a mesma.
- Posso só pedir dois favores?
- Sim.
- Acho que você deveria pintar essa parede e talvez colocar um poster bem grande do Darth Vader bem aqui - A outra ela indicava a parede branca perto da porta.
- Fiz isso semana passada!
- Bem que você poderia ter sido mais detalhista nesse sonho né?
- Desculpe. E qual é o outro favor?
- Seja menos grosseira. Todo mundo sabe que você não fala de romantismo e não gosta de demonstrar afeto, mas não precisa dizer que tudo é bichisse ok? 
- Você não disse que ia pedir algo impossível.
Elas riram e uma luz muito forte acendeu. Ela viu uma janela aberta bem em frente ao seus olhos. O quarto estava muito iluminado e ela sabia que tinha acordado.
p.s. da autora.
As vezes nos perdemos quando tudo o que queremos é nos encontrar.
Se o seu verdadeiro eu está preso, ao menos deixa uma pequena luz entrar.
- @JessyMcLovin

urdas de alma gêmea que ela insistia em contar.




porque domingos são bonitos.
Eu sei que ele gosta do Raul Seixas por causa da sua camiseta preta com a cara do Raul estampada. E sei que ela gosta de The Smiths porque quando ela o abraçou e sua camiseta levantou eu vi a tatuagem da banda nas costas dela.
Eu estava esperando o trem e poderia estar estressada por ficar trinta minutos naquela estação sem graça, mas não naquele domingo pois eu mesma estava feliz por estar indo de encontro a alguém em outra estação.
Eles se abraçaram e sentaram no banco ao meu
lado pedindo licença, que eu concedi com um dos meus sorrisos dominicais. Eu estava sem músicas, tinha esquecido os fones de ouvido em casa e por descuido deixei o livro que lia em cima da mesa de jantar. Decidi então, apenas curtir o sol que teimava em brilhar por trás dos meus óculos escuros, foi quando, sem pedir licença eu comecei a escutar o que o garoto Seixas e a garota Smiths conversavam (ou tentavam).
Era o primeiro encontro deles e eles pareciam tão nervosos, interrompendo um ao outro e rindo nervosos com suas próprias palavras. Ela começou a falar sobre o amor e sobre como doía amar e então, ele perguntou se ela já tinha sofrido por amor, o que ela respondeu com um sorriso amargo “e quem nunca sofreu?”. Ele então diagnosticou que o que faz sofrer na verdade não é a situação em si, e sim como nos prendemos àquilo, entramos em uma profunda depressão ouvindo as músicas mais tristes e procurando em todos os cantos a pessoa que nos faz sofrer, porque sofrer é preciso, assim como amar é necessário.
Achei o garoto Seixas super esperto depois dessa.
Ela perguntou como andavam as coisas lá na cidade dele e perguntou isso com olhos tristes e voz carregada de lágrimas. Quando ele pegou a mão dela e disse que nada estava bem, porque parte dele estava ali naquela estação de trem com ela todos os dias, eu constatei que a garota Smiths amava um cara distante.
Quis abraçá-los. Construir uma casa pra eles ali naquela estação de trem só pra eles terem mais tempo juntos, criarem raízes e tomarem café.
Ela disse que tudo ficaria bem, que ela lhe mostraria as ruas dela a ele, e encheria os olhos dele de visões bonitas, pra que quando ele voltasse pra seu ninho, ele lembrasse dela e sorrisse. “Porque eu só quero que você sorria”, ela disse quando ele a abraçou.
Ele riu baixinho e disse que queria um buraco negro apenas pra eles, ela perguntou o motivo. O garoto Seixas disse que seria mais fácil para os apaixonados morarem em buracos negros, “o tempo seria apenas nosso, decoraríamos as paredes do buraco como quiséssemos e nunca nos cansaríamos de viajar juntos pelas dimensões”. Eles entraram numa discussão sobre buracos negros, na qual eu me perdi e constatei que eles já tinham falado sobre isso antes, quem sabe por cartas ou ligações noturnas?
Pelo canto do olho eu o via nervoso passar as mãos pelo cabelo e ela a raspar o esmalte das unhas. Foi quando ele a interrompeu enquanto ela falava sobre os furos de ‘Back to the future’, “por que eu não te conheci antes? Em qual dimensão você se escondia?” ele perguntou (ou declarou) e depois abaixou a cabeça como se não tivesse pensado naquilo antes de dizer. Ela pegou a mão dele e sussurrou algo no ouvido dele que eu não consegui ouvir – o que me deixou bastante curiosa, pois depois das palavras sussurradas, o garoto Seixas sorriu e a beijou.
Então, sem pedir licença constatei que eles estavam apaixonados, mas não sabiam disso ainda, sabiam na verdade, mas não admitiriam aquilo ali em voz alta numa estação de trem.
E em outra situação eu ficaria bastante brava por um casal se beijar ao meu lado, sem cerimônias, eu sou chata o suficiente pra me incomodar com demonstrações de afeto em público. Mas não com aqueles dois, eles estavam na dimensão que haviam criado apenas para eles, e por morarem em planetas diferentes, eu achei que era justo o universo lhes dar aquela estação de trem para darem seu primeiro beijo.
Depois do beijo, o garoto Seixas sussurrou algo no ouvido da garota Smiths que a fez sorrir e constatar que aquele era o melhor domingo da sua vida.
Então eles se levantaram e surpreendida perguntei a mim mesma se eles iam embora dali, sem perceber que o trem havia chegado à plataforma. Entramos no trem e de longe observei os dois, tão cúmplices de algo, tão felizes e tão similares.
Então eu pensei que se eles falavam sobre buracos negros e viagens no tempo, por que eles não poderiam colecionar borboletas?
E morarem no planeta que eles criaram só para eles dentro de seus corações, onde todas as noites eles se encontram e olham o pôr do sol juntos. Onde as músicas nunca são suficientes e o tempo sempre os deixa mais uns minutos para terminarem de ver aquele filme dos anos 80 que ela tanto gosta.
Eu desci antes deles e encontrava minha dimensão ali naquela estação lotada me esperando com um dos seus sorrisos dominicais, feitos apenas para mim.
Tive vontade de acenar para o trem quando ele saiu da plataforma, queria saber aonde o trem levaria aqueles dois com corações tão parecidos ao do Pequeno Príncipe. Me perguntei se eles ficariam bem e que fim levaria aquele dia deles.
Mas dei conta que eu já sabia que eles ficariam bem, porque eles sempre teriam os domingos, pôr do sol e estações de trem para lhes proteger da distancia, baobás e tempestades.
Meus pensamentos sobre o garoto Seixas e garota Smiths foram afastados quando ele (o garoto que dividia uma dimensão comigo) sussurrou algo em meu ouvido enquanto subíamos a escada rolante, e então quando eu dei um sorriso igual o da menina Smiths, eu descobri que sabia o que eles tinham sussurrado naquela estação de trem.
É, eu sabia.
p.s. da narradora:
preciso parar de escrever tanto assim, mas acho simplesmente bonito e necessário mostrar a minha visão sobre os outros.
- Hey
- Que foi?
- Terminei
- Terminou o quê?
- Com ele
- O seu namorado?
- É, mas você já sabia né?
- Claro, você esqueceu quem eu sou?
- Não, mas você entende né, novidades, preciso contar.
- A falta de ver seus amigos faz isso
- Eu tenho internet esqueceu?
- Eu não tenho tanta participação em você quando seu cérebro está submerso na rede e online
-Isso faz sentido...
- Ele não era bom de cama?
- Quê?
- É, não se faça de desentendida, você entendeu
- Não vou responder isso!
- E por que não? Ele não é mais seu namorado e eu estou curiosa
- É verdade, você não presenciou nada
- Viu, as vezes até eu fico sem saber das coisas. Pois então me conte, ele era ruim de cama?
- Já disse que não vou responder isso!
- E por que não?
- Porque tem pessoas lendo nossa conversa, vai que ele lê também?
- Você e essa mania idiota de escrever as coisas idiotas da sua vida de um jeito menos idiota...
- Você só fala isso porque não participa do processo
- E a culpa lá é minha se você entra em transe e escreve feito uma doida?
- Invejosa
- Esquisita
-Não vamos começar com isso de novo, vamos? 
- E o que você vai fazer agora que somos solteiras?
- Não sei, não preciso fazer uma mudança radical toda vez que eu terminar um relacionamento, preciso?
- Tem gente que corta o cabelo, pra falar a verdade é a coisa mais comum
- Até que seria uma boa idéia, mas eu não sei o que fazer nele
- Pinta de azul
- Isso, ai eu me mudo pra Toronto e viro entregadora da Amazon usando patins normais na neve e usando rodovias subespaciais localizadas nos sonhos das pessoas?
- Você não tem sete ex-namorados do mal ainda
- Já sei
- O quê?
- Sair pra dançar loucamente, como se a minha vida dependesse disso
- Você não prefere jogar vídeo game loucamente com os seus amigos? Eu sei que você ama o joguinho de dança...
- O lado bom de eu ter terminado tudo foi que não precisarei me preocupar com o presente do dia dos namorados e poderei ficar com meus amigos como eu sempre fiz durante meus 19 anos
- É uma opção. E você já jogou as coisas dele fora? Deletou as fotos? Chorou?
- Já, já e não.
- Por que não?
- Não senti vontade
- E por que não? Você gostava tanto dele...
- Sempre ando com pelo menos um pé no chão quando o assunto é relacionamentos, e esse pé é você
- Viu como o passado ruim tem seus frutos positivos?
- Não sei onde eu estaria sem você
- Deixa de ser melosa e me diga uma coisa
- O quê?
- Ele era ruim de cama?
- Consciência!
- @Kuro_N3ko
Vou ser uma árvore.conversas de bar I
Eu corro carregando minhas sacolas de compras, como sempre, estou atrasada. Enquanto vou desviando das pessoas, vou pensando em desculpas para meu atraso, mas ele já conhece todas e acredito que meus atrasos fazem um bem danado à nossa relação.
Sinto calor, dobro a esquina e paro de correr, dou uma ajeitada em meu casaco preto e meu cabelo, mas logo desisto, descobri há muito tempo que sou descabelada por natureza. Paro em frente à cafeteria e pelo vidro o vejo sentado na mesa mais afastada, olhando o relógio. Então sua atenção é desviada para a rua e lá estou eu, parada cheia de sacolas e com cabelos bagunçados. Ele faz um sinal apressado para eu entrar logo e eu dou uma das minhas risadas escandalosas.
Enquanto ando em direção à mesa dele, ele fica apenas lá sentado me encarando. Eu me sento na cadeira em frente a ele e largo minhas sacolas no chão e, não existem cumprimentos calorosos entre nós, somos assim, agimos como se não nos conhecêssemos, como se não compartilhássemos horas e palavras.

- Você tá atrasada- ele acusa e eu abro a boca pra protestar- e nem me venha com a desculpa do metrô lotado e que as pessoas não te deixam entrar nele. Eu vi suas sacolas gigantes.
- Não vou pedir desculpas, você sabe que elas não sinceras quando dirigidas a você- eu falo e ele ri- E enfim, eu preciso controlar esse meu consumismo – eu já me preparo para meu discurso psicológico sobre meu consumismo desenfreado, mas sou surpreendida com o toque da mão quente dele na minha, me perco nas minhas próprias palavras. - Me fala da sua semana, me distraia - e ele começa a me contar sobre suas últimas ressacas e sobre o fato de ter enjoado de ter ouvido o novo DVD do Metallica, o que me deixa muito surpresa por sinal.
Por algum motivo eu gosto de estar ali com ele, sem me importar com o tempo fora daquelas paredes de vidro, alheia ao que acontece ao meu redor. Ele vai falando sobre os últimos filmes que viu e eu falo sobre os livros que eu li. Ele me guia entre suas relações com filmes e eu o guio entre minhas historias malucas.
- Acho melhor te alimentar- ele diz quando eu acabo de lhe contar sobre a primeira vez que fui parar na diretoria, e antes que eu faça algum protesto, ele pede um pedaço de torta de morango. – Tô te devendo uma, lembra? – eu faço que sim com a cabeça meio incrédula por ele ter lembrado algo tão superficial que lhe pedi logo após nosso primeiro beijo.
A garçonete traz o pedaço de torta, junto com uma colher e eu peço pra ela me trazer mais uma colher. E ele arqueia uma sobrancelha.
-Ué, vamos comer nossa primeira torta juntos. Não é extremamente anormal pra nós? – eu digo dando uma risada. Damos a primeira colherada no pedaço juntos e ele acaba em segundos. E pedimos outro pedaço de torta e conversamos mais. E agora falamos sobre nossas famílias, e sobre como somos tão parecidos e mimados.
Ele fica admirado com fato de eu comer apenas sobremesas com a mão esquerda. Ele me faz rir quando me imita falando e passando as mãos nos cabelos. Ele não se importa quando eu o xingo dos nomes mais escrotos possíveis, e eu não finjo não me importar quando ele me elogia.
E falamos sobre músicas e sobre os futuros shows que vamos. E acabamos entre uma colherada e outra montando uma playlist para o show do U2- o que me faz rir por dentro por ter me feito lembrar alguém do passado- e decidimos ao final que o Bono não pode beijar a bandeira dos estados unidos novamente e nem chamar uma garota pra ele dar um selinho.

Rimos juntos por confessarmos que nos odiávamos muito mais há 3 meses atrás e que somos pessoas que não
sabem agir normalmente. Gostamos de Natal e decretamos leis para o mundo, não o nosso mundo particular, o mundo em geral.
- Está proibido falar que o Natal é uma época hipócrita!- ele fala levantando a colher e eu caio na risada. – E te achar metida a primeira vista, porque cá entre nós, eu achei isso. E emendo dizendo que te achei muito azeda também.
-Eu nem tenho cara de metida. - eu falo incrédula.
- Relaxa, eu já perdoei essa parte, só porque suas pernas são lindas.- ele ri e olha por debaixo da mesa e volta dizendo que acha uma pena eu usar calças jeans.
- Eu tiraria todo essa sua falta de escrúpulos e criaria mais homens com sardas, como você. - eu disparo e me arrependo logo em seguida, porque ele começa um discurso sobre como as sardas dele me seduzem. – Dá um tempo. – eu digo, enquanto sou servida por mais um pedaço de torta.
- Eu te daria mais tempo, você sempre diz que precisa de tempo. – ele diz, enquanto dá outra colherada no meu pedaço de torta. – E eu tiraria as placas de sinalização e os retornos... Seria muito mais fácil pra dirigir sem placas e pra retornar, eu apenas passaria por cima da grama e estaria do outro lado da pista. - E isso me faz rir, sempre dou risada com essa vontade de ser imprudente no transito que existe nele.
- Eu decreto que todas as terças-feiras seriam dias para comer torta e fazer compras- eu digo e ele grita “consumista”- e todas as sextas-feiras dia de beber cerveja- eu continuo sem dar bola e ele grita “bêbada” e caímos na risada.
Ele briga comigo quando eu olho o relógio, desvia minha atenção para qualquer outra coisa. E toda vez que nossas mãos se tocam, eu sinto o exercito de clones de Star Wars dentro do meu estomago. Confesso coisas que se passam na minha cabeça nos últimos tempos, minhas confissões são entregues a ele ali naquela cafeteria.
- E sabe, acho que estou cada dia mais perto do poço, como em Clube da Luta, como se eu tivesse mesmo uma marca feita por algum reagente químico em minha mão, como se eu quisesse mudar essa realidade, esse meu consumismo. Como se eu quisesse deixar minhas marcas nas pessoas, mas não soubesse como. – eu rio nervosa por toda minha paranóia- acho que na verdade, só quero que no final de cada dia meu toque “Where is my mind”.
- Acho que todo mundo dessa geração quer mudar algo de sua realidade, e eu acredito que seja uma boa causa para nós. – ele diz- você só não pode se tornar depressiva por isso. Ou bêbada. Se bem que já é tarde pra isso... Você quase bebe o mesmo tanto que eu.
- Menos, bem menos, por favor. – eu digo com minha cara de tédio que o faz rir horrores.
- Mas se você quiser eu dou um jeito de você sempre ouvir ‘where is my mind’ no final do dia. - ele diz.
- Tá ficando muito sentimental, pro meu gosto. - eu aponto a colher pra ele e ele ri coçando a barba por fazer.
- Você está muito longe de mim. – ele aponta para a mesa e eu digo que gosto
da distancia entre nós às vezes. E não nos pressionamos a nada, a entrar na rotina um do outro, porque achamos que na maioria dos casos, é essa falta de sossego que acaba com tudo, o casual é bom, e funciona para nós. Não vemos motivos para marcar futuros encontros ou planejar qualquer coisa, sabemos que estaremos lá naquele dia e naquele horário sempre que um quiser e precisar.
- Posso te confessar algo?- ele pergunta, largando a colher na mesa.
- Claro, contanto que não seja nada pervertido.- digo rápido e cruzo minhas mãos em cima da mesa.
- Nunca pensei que um dia teríamos uma conversa assim- ele continua- sempre vi você como uma pessoa cercada por muros impenetráveis, sei lá por que... acho que é porque eu sou assim também.

- É meio frustrante descobrir que sou vulnerável a você – eu seguro a mão dele - e que você é vulnerável a mim. Acho simplesmente tão surpreendente que nem sei criar um discurso psicológico pra isso, deixo essa parte para minhas amigas e minha mãe.
- Como você consegue ser assim? - ele me olha enquanto como mais um pedaço de torta sozinha- desse jeito tão debochado, sem se importar com seu cabelo ou com os palavrões que solta.
- Isso era pra ser um elogio?- eu olho incrédula pra ele.
- Sim. - ele diz, se encostando na cadeira.
Eu aponto a colher pra ele enquanto mastigo.
- Você vai acabar gostando de mim, sabia?- eu digo e volto a dar outra colherada na torta.
- Eu sei. – o ouço dizer. Levanto a cabeça, encontro o olhar dele e sorrimos. Um sorriso de cúmplices, como se ele acabasse de me contar um grande segredo e assim, eu me tornasse guardiã dele.
- Sabe, - eu digo e aponto para a torta com a colher- eu decreto que essa é a melhor torta de morango que já comi.
p.s. da narradora
é, somos assim.
e eu não sei escrever diálogos.
he’s asleep, i’m wide awake,
@PriiiG

- Arranjei um namorado 
- E?
- E o quê?
- E o que é que tem?
- O que é que tem o quê? Eu ter arranjado um namorado?
- É, o que é que tem isso?
- Ah, queria te contar
- Por quê?
- Porque você é minha consciência
- Mas se eu sou a sua consciência eu já sabia disso certo?
- Certo?
- Então por que é que você queria me contar uma coisa que eu já sei?
- Porque me deu vontade oras! Faz tanto tempo que a gente não conversa...
- A culpa é da sua faculdade, nem vem brigar comigo
- Como é que eu posso brigar com a minha própria consciência?
- Qual é o rumo dessa conversa mesmo?
- Meu namorado
- É?
- É
- E ele é legal?
- Se ele não fosse por que diabos eu estaria com ele?
- Ele pode ser um babaca, mas ser ótimo na cama.
- Isso faz sentido
- E ele é bonito?
- Claro que é, pelo menos pra gente ele é...
- É rico?
- Que tipo de pergunta é essa?!
- Estou pensando na nossa aposentadoria
- Eu não vou casar com ele
- Então estou pensando nos nossos futuros presentes
- Interesseira
- Eu sou você esqueceu?
- Ah merda, to odeio as vezes
- A culpa não é minha se você faz cagada e eu que fico pesando na nossa cabeça
- Mas eu não fiz cagada nenhuma... Pelo menos não com ele
- Ainda
- Ou! Dá pra ser um pouquinho positiva e pensar em coisas boas?
- Eu sou a sua razão, não os seus sentimentos.
- E é uma vaca também
- Elogios a parte, você pretende seguir sua lista de resoluções de ano novo?
- Eu não to fazendo isso agora?
- Discutir comigo não é uma delas
- Mas o texto que eu vou extrair dessa conversa sim
- Te odeio as vezes
- E por que tanta hostilidade randômica?!
- Porque você sou eu, eu te amo e te odeio, preciso disso pra poder ficar junto de você.
- Bom, se eu te perder eu meio que acabo morrendo então acho meio óbvio isso não é?
- Agora me senti num casamento
- Horrível não?
- Nem me fala... Só de pensar já dá dor de cabeça
- Ah é, esqueci de falar
- O quê?
- Feliz ano novo.
- @Kuro_N3ko
pro tempo engatinhar do jeito que eu sempre quis.
- Vamos quebrar esse seu maldito relógio? – ele disse no meio da música, enquanto as luzes brincavam na minha pele.
Não consigo viver sem olhar meu relógio branco de pulso, estou presa no tempo, nas horas, nos minutos, no Sol que se vai e na Lua que chega.
Eu criaria dias maiores, os dias de trabalho teriam horas reduzidas e os dias para viver livremente sem se preocupar com nada teriam 40 horas. Assim, eu veria todos meus amigos, dançaríamos todas as musicas e beberíamos todos os shots de tequilas que agüentaríamos. E riríamos sem nos preocupar em voltar pra casa porque demoraria muito ainda pra amanhecer.
Eu daria mais horas pra vocês não fazerem nada ou lerem alguma coisa legal. Pra aprendermos mais palavras novas no dicionário, para olhar vitrines, escolher filmes e falar sobre vinis. Menos tempo no trânsito pra assim você conseguir entregar aquele livro do Pequeno Príncipe que você carrega debaixo do braço pro seu verdadeiro príncipe.
Tempo pra poder aprender a dirigir, pra poder fazer dinheiro, limpar a bagunça do quarto, armário e do carro. Pra pintar as paredes da cozinha, pra xingar mais, pra escrever cartas e enviá-las. Mais tempo pra ficar na sala vendo novela com a minha vó, mais tempo pra criar coragem e dizer todos os dias pra minha mãe que eu amo, de verdade. Mais tempo pra inventar piadas estúpidas com meu tio e minha prima.
Mais tempo pra sermos felizes, pra você se maquiar e escolher uma roupa adequada pro seu encontro de hoje à noite. Mais tempo para ver os amigos durante a semana, para fugir pra ver o mar, pra jogar vídeo-game, passar horas naquela fila do cinema e responder e-mails. Mais tempo pra reprimir as palavras lacradas dentro de mim, pra ficar no sofá vendo filme enquanto o Sol bate na janela e dar conselhos. Mais tempo pra ser um pouco menos fria, pra inventar novas manias e controlar a risada escandalosa.
Tempo para atravessar o mundo e tirar uma foto com anões de jardim, para ir até aquela cidade e dizer na cara dele que aquele beijo que ele te deu deixou um gosto amargo na sua boca. Tempo pra diminuir a distância entre um abraço e outro, pra contar minha vida para pessoas desconhecidas e pra ficar conversando besteira pelo telefone.
Criar mais tempo pros amores encontrarem seus lugares, os lugares que chamarão de lar. Mais tempo deitada no sofá, mais tempo para tirar uma soneca antes de ir trabalhar, pra atualizar minha vida e pra cortar meus cabelos. Pra comprar all star, sandálias e vestidos floridos, ingressos para aquele maldito show, churros e cerveja gelada que mata o calor.
Horas e minutos pra você planejar seu futuro, tomar café com seus novos amigos, se perder na Av. Paulista e pra matar saudade bebendo uma coca-cola gelada. Pra rirmos mais com historias contadas dentro do ultimo vagão do trem, pra dançar (sem saber) música dos anos 80, pra chorar sem motivos e sorrir enquanto seca as lágrimas.
Quebrar os despertadores e os relógios só pra você ficar mais tempo conversando na calçada com seus vizinhos, comer pizza com sua família e tirar fotos com seus amigos da escola, aqueles que você não vê há muito tempo, por causa do tempo.
Mais tempo para terminarmos aquele livro, pra acabarmos de contarmos aquela história maluca pelo messenger e pagar as contas. Escolher roupas novas, o que comer e o que sonhar acordada deitada na cama.
Pedir pra mãe mais 10 minutos dormindo, conversando ao telefone, tomando banho, se arrumando, dando amassos dentro do carro, usando o pc ou vendo aquele desenho.
Mais tempo pra inspiração ficar, mais dias dourados, mais dias de folga e tempo para as compras de Natal. Mais tempo na casa da amiga só pra acabarmos de beber aquele vinho que compramos, pra contar pra minha mãe sobre meu trabalho e tempo para acabarmos de jogar Uno enquanto vemos aqueles shows com roqueiros loiros e sarados. E mais tempo pra não nos importarmos em perder a hora, a carona e o último metrô de volta pra casa só pra poder sentir os lábios de alguém pela última vez na noite. Mais tempo pra dar 00h00, mais tempo nos abraços, comer torta de morango, brindes e 18 anos.
Tempo pra vivermos o verão, sem restrições e sem relógios.
p.s. da narradora:
achei correto escrever sobre o tempo nesse primeiro dia de verão – mesmo que o Sol não esteja brilhando por aqui, não quer dizer que não seja verão e que ele nunca mais vai brilhar.-, e no aniversário do blog, afinal, aniversário é algo nostálgico, até para um blog.
Eu nem tenho palavras bonitas e bobas pra falar sobre o 1º ano do DNME. Só sei que sinto um orgulho imenso por estar aqui compartilhando minhas palavras e sentimentos com vocês. Continuem bonitos, continuem se apaixonando, rindo e bebendo (suco ou cerveja), que nós continuamos por aqui escrevendo essas palavras tortas e um tanto bonitas pra vocês.
Cá entre nós, não deixem o verão pra mais tarde,
@PriiiG
ou pra você que é de sagitário.
Eu poderia de muitas formas pedir desculpas pela coluna de dias até escrever essas palavras bobas minhas hoje aqui, acontece que você já sabe como eu sou displicente, e se não respondo e-mail, escrevo cartões ou telefono é porque falta tempo e sobra preguiça.
Eu criaria um dia de 36 horas só pra nós duas, você me contaria a sua vida de agora e eu te contaria todas as histórias que tenho vivido no trabalho. Eu juntaria nossos bairros e criaríamos a nossa cidade, cheia de casas coloridas bares, cinemas e docerias. Mais shows do Paul aqui e toda sexta-feira show da Cachorro Grande, porque todo mundo precisa de um capricho e homem usando gravata tocando rock.

Eu quero dizer que quero que você seja feliz, meu Deus, como eu quero isso. Que você sempre me mande e-mails com capítulos daquele livro que tentamos escrever e e-mails com desabafos, pois você sabe que eu tenho um dom especial pra dar conselhos. E que você sempre me ajude quando eu estiver meio perdida entre relações confusas.
Vou continuar puxando sua orelha quando você soar depressiva demais e marcando cinemas que nunca acontecem- prometo, nesse novo ano fazer um acontecer mesmo-. Te mostrar músicas novas pra você se apaixonar, chorar com todos seus depoimentos, ler os mesmos livros pervertidos que você e dar pulinhos quando você me mostrar cenas dos filmes do Depp.
Não quero que você suma por causa do tempo, quero que você continue por ai, lendo minhas palavras e me dando apelidos maravilhosos. Não quero sentir saudade de você, nem dos nossos dias dourados em que só estudávamos e enchíamos a barriga de besteira nas férias. Eu quero mais tempo, mais tempo com você pra vivermos nossos dias dourados novamente. Mais tempo pra você me contar as historias românticas do mundo da música e me explicar o que não entendo na gramática.
Continuar acreditando que já éramos amigas em outra vida, que vampiros brilham no sol e que você é louca pelo macarrão ao molho branco da minha vó. Acreditar que Kate Nash sempre falará por nós quando estivermos sufocadas e que você sempre será a cópia paulista da Norah Jones.
Que você chore por coisas bobas, sei lá, chore porque seu caderno não é da moranguinho, ria por coisas mais bestas ainda, abrace mais e seja mais abraçada. E não suma, não se perca nessa imensidão de pessoas que você conhece. Que em noites turbulentas as estrelas estejam lá por você, que você vá ver o mar e faça desenhos na areia. Milhões de balas de goma pra você, músicas do Killers pra você dançar, filmes franceses e livros pra você me dar spoilers.
E ah sim! Continue se apaixonando, não se prive do amor jamais. E não se preocupe, eu sempre estarei por aqui pra te proteger de qualquer cara que você vá se apaixonar.
Seus novos anos serão lindos, vai por mim, eu acredito nessas coisas. Acredito em você, no tempo, em taças de vinhos, nos bandolins, em “homens de verdade” que usam jaquetas de couro, nos livros que lemos, nos filmes que vemos e nas coisas que compartilhamos numa janela do messenger pela madrugada.
Acredito pra sempre que dias ensolarados serão sempre nossos dias para ouvir Rooney e nos entupir de bala de goma com sorvete.
E como é sempre necessário,
Eu te amo, feliz aniversário (atrasado) minha querida amiga.
p.s da narradora:
pra você garota dos olhos castanhos.
Happy in her own little world,
@PriiiG