terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

11th dimension




porque domingos são bonitos.




Eu sei que ele gosta do Raul Seixas por causa da sua camiseta preta com a cara do Raul estampada. E sei que ela gosta de The Smiths porque quando ela o abraçou e sua camiseta levantou eu vi a tatuagem da banda nas costas dela.



Eu estava esperando o trem e poderia estar estressada por ficar trinta minutos naquela estação sem graça, mas não naquele domingo pois eu mesma estava feliz por estar indo de encontro a alguém em outra estação.

Eles se abraçaram e sentaram no banco ao meu
lado pedindo licença, que eu concedi com um dos meus sorrisos dominicais. Eu estava sem músicas, tinha esquecido os fones de ouvido em casa e por descuido deixei o livro que lia em cima da mesa de jantar. Decidi então, apenas curtir o sol que teimava em brilhar por trás dos meus óculos escuros, foi quando, sem pedir licença eu comecei a escutar o que o garoto Seixas e a garota Smiths conversavam (ou tentavam).

Era o primeiro encontro deles e eles pareciam tão nervosos, interrompendo um ao outro e rindo nervosos com suas próprias palavras. Ela começou a falar sobre o amor e sobre como doía amar e então, ele perguntou se ela já tinha sofrido por amor, o que ela respondeu com um sorriso amargo “e quem nunca sofreu?”. Ele então diagnosticou que o que faz sofrer na verdade não é a situação em si, e sim como nos prendemos àquilo, entramos em uma profunda depressão ouvindo as músicas mais tristes e procurando em todos os cantos a pessoa que nos faz sofrer, porque sofrer é preciso, assim como amar é necessário.

Achei o garoto Seixas super esperto depois dessa.

Ela perguntou como andavam as coisas lá na cidade dele e perguntou isso com olhos tristes e voz carregada de lágrimas. Quando ele pegou a mão dela e disse que nada estava bem, porque parte dele estava ali naquela estação de trem com ela todos os dias, eu constatei que a garota Smiths amava um cara distante.

Quis abraçá-los. Construir uma casa pra eles ali naquela estação de trem só pra eles terem mais tempo juntos, criarem raízes e tomarem café.

Ela disse que tudo ficaria bem, que ela lhe mostraria as ruas dela a ele, e encheria os olhos dele de visões bonitas, pra que quando ele voltasse pra seu ninho, ele lembrasse dela e sorrisse. “Porque eu só quero que você sorria”, ela disse quando ele a abraçou.

Ele riu baixinho e disse que queria um buraco negro apenas pra eles, ela perguntou o motivo. O garoto Seixas disse que seria mais fácil para os apaixonados morarem em buracos negros, “o tempo seria apenas nosso, decoraríamos as paredes do buraco como quiséssemos e nunca nos cansaríamos de viajar juntos pelas dimensões”. Eles entraram numa discussão sobre buracos negros, na qual eu me perdi e constatei que eles já tinham falado sobre isso antes, quem sabe por cartas ou ligações noturnas?

Pelo canto do olho eu o via nervoso passar as mãos pelo cabelo e ela a raspar o esmalte das unhas. Foi quando ele a interrompeu enquanto ela falava sobre os furos de ‘Back to the future’, “por que eu não te conheci antes? Em qual dimensão você se escondia?” ele perguntou (ou declarou) e depois abaixou a cabeça como se não tivesse pensado naquilo antes de dizer. Ela pegou a mão dele e sussurrou algo no ouvido dele que eu não consegui ouvir – o que me deixou bastante curiosa, pois depois das palavras sussurradas, o garoto Seixas sorriu e a beijou.

Então, sem pedir licença constatei que eles estavam apaixonados, mas não sabiam disso ainda, sabiam na verdade, mas não admitiriam aquilo ali em voz alta numa estação de trem.

E em outra situação eu ficaria bastante brava por um casal se beijar ao meu lado, sem cerimônias, eu sou chata o suficiente pra me incomodar com demonstrações de afeto em público. Mas não com aqueles dois, eles estavam na dimensão que haviam criado apenas para eles, e por morarem em planetas diferentes, eu achei que era justo o universo lhes dar aquela estação de trem para darem seu primeiro beijo.

Depois do beijo, o garoto Seixas sussurrou algo no ouvido da garota Smiths que a fez sorrir e constatar que aquele era o melhor domingo da sua vida.

Então eles se levantaram e surpreendida perguntei a mim mesma se eles iam embora dali, sem perceber que o trem havia chegado à plataforma. Entramos no trem e de longe observei os dois, tão cúmplices de algo, tão felizes e tão similares.

Então eu pensei que se eles falavam sobre buracos negros e viagens no tempo, por que eles não poderiam colecionar borboletas?

E morarem no planeta que eles criaram só para eles dentro de seus corações, onde todas as noites eles se encontram e olham o pôr do sol juntos. Onde as músicas nunca são suficientes e o tempo sempre os deixa mais uns minutos para terminarem de ver aquele filme dos anos 80 que ela tanto gosta.

Eu desci antes deles e encontrava minha dimensão ali naquela estação lotada me esperando com um dos seus sorrisos dominicais, feitos apenas para mim.

Tive vontade de acenar para o trem quando ele saiu da plataforma, queria saber aonde o trem levaria aqueles dois com corações tão parecidos ao do Pequeno Príncipe. Me perguntei se eles ficariam bem e que fim levaria aquele dia deles.

Mas dei conta que eu já sabia que eles ficariam bem, porque eles sempre teriam os domingos, pôr do sol e estações de trem para lhes proteger da distancia, baobás e tempestades.

Meus pensamentos sobre o garoto Seixas e garota Smiths foram afastados quando ele (o garoto que dividia uma dimensão comigo) sussurrou algo em meu ouvido enquanto subíamos a escada rolante, e então quando eu dei um sorriso igual o da menina Smiths, eu descobri que sabia o que eles tinham sussurrado naquela estação de trem.

É, eu sabia.


p.s. da narradora:

preciso parar de escrever tanto assim, mas acho simplesmente bonito e necessário mostrar a minha visão sobre os outros.




I took the stars from our eyes, and then I made a map,

@PriiiG

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Monólogo de dois - parte 2





- Hey
- Que foi?
- Terminei
- Terminou o quê?
- Com ele
- O seu namorado?
- É, mas você já sabia né?
- Claro, você esqueceu quem eu sou?
- Não, mas você entende né, novidades, preciso contar.
- A falta de ver seus amigos faz isso
- Eu tenho internet esqueceu?
- Eu não tenho tanta participação em você quando seu cérebro está submerso na rede e online
-Isso faz sentido...
- Ele não era bom de cama?
- Quê?
- É, não se faça de desentendida, você entendeu
- Não vou responder isso!
- E por que não? Ele não é mais seu namorado e eu estou curiosa
- É verdade, você não presenciou nada
- Viu, as vezes até eu fico sem saber das coisas. Pois então me conte, ele era ruim de cama?
- Já disse que não vou responder isso!
- E por que não?
- Porque tem pessoas lendo nossa conversa, vai que ele lê também?
- Você e essa mania idiota de escrever as coisas idiotas da sua vida de um jeito menos idiota...
- Você só fala isso porque não participa do processo
- E a culpa lá é minha se você entra em transe e escreve feito uma doida?
- Invejosa
- Esquisita
-Não vamos começar com isso de novo, vamos?
- E o que você vai fazer agora que somos solteiras?
- Não sei, não preciso fazer uma mudança radical toda vez que eu terminar um relacionamento, preciso?
- Tem gente que corta o cabelo, pra falar a verdade é a coisa mais comum
- Até que seria uma boa idéia, mas eu não sei o que fazer nele
- Pinta de azul
- Isso, ai eu me mudo pra Toronto e viro entregadora da Amazon usando patins normais na neve e usando rodovias subespaciais localizadas nos sonhos das pessoas?
- Você não tem sete ex-namorados do mal ainda
- Já sei
- O quê?
- Sair pra dançar loucamente, como se a minha vida dependesse disso
- Você não prefere jogar vídeo game loucamente com os seus amigos? Eu sei que você ama o joguinho de dança...
- O lado bom de eu ter terminado tudo foi que não precisarei me preocupar com o presente do dia dos namorados e poderei ficar com meus amigos como eu sempre fiz durante meus 19 anos
- É uma opção. E você já jogou as coisas dele fora? Deletou as fotos? Chorou?
- Já, já e não.
- Por que não?
- Não senti vontade
- E por que não? Você gostava tanto dele...
- Sempre ando com pelo menos um pé no chão quando o assunto é relacionamentos, e esse pé é você
- Viu como o passado ruim tem seus frutos positivos?
- Não sei onde eu estaria sem você
- Deixa de ser melosa e me diga uma coisa
- O quê?
- Ele era ruim de cama?
- Consciência!

- @Kuro_N3ko

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

ต้นไม้




Quando a natureza me dominar ao menos serei uma árvore; serei útil.

Quando eu for uma árvore, as pessoas vão me visitar nos feriados.
Pode ter alguém que me abrace, vão me fazer companhia, com um piquenique ao meu lado.
Alguém vai escrever uma frase de amor em mim e, terei várias tatuagens de coração pelo corpo.
Quando o sol estiver forte, vão se proteger à minha sombra, e, com sorte, vão ler um livro aos meus pés. Eu vou fazer parte de um dia, de uma vida, de uma história, de amor ou não. Com um final ou não.

Vou ser uma árvore.

Vou ser uma árvore, e pássaros irão morar em mim. Pássaros vão botar ovinhos e novos passarinhos nascerão; sempre haverá uma vida nova em mim. E enquanto as flores nascerem a minha volta, crianças crescerão brincando em torno de mim. (Provavelmente alguma tropeçará em mim e irá chorar. Alguma mãe correrá e dará os cookies que fez,
enquanto lê em voz alta 'O Pequeno Príncipe').

Quando eu for uma árvore, você terá de passar muitos anos ao meu lado, teremos amigos arbustos e finalmente poderei zombar de alguém menor que eu.

Vou ser uma árvore, e serei um ipê rosa. Você será um ipê amarelo.
Iremos tomar chuva sem medo de ficarmos doentes. Seremos acordadas pelo sol nos tocando todos os dias. Deixarei o vento levar minhas pétalas à você, e talvez deixe os passarinhos que vivem em mim te visitar.

Quando formos árvores, na primavera você será linda e nossas cores se misturarão ao azul do céu.
Quando o outono chegar, as cores não irão mais nos diferenciar.
Seremos sempre você e eu.

por @CarolBizzi


[pela primeira vez (Ô) participação da Carol Best Bizzi -nosso ipê amarelo- aqui no DNME. continuem bonitos, sejam o ipê de alguém e se apaixonem por esse belo texto da querida 'Best']

*título do post: árvore em tailândes*

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

torta de morango

conversas de bar I

Eu corro carregando minhas sacolas de compras, como sempre, estou atrasada. Enquanto vou desviando das pessoas, vou pensando em desculpas para meu atraso, mas ele já conhece todas e acredito que meus atrasos fazem um bem danado à nossa relação.

Sinto calor, dobro a esquina e paro de correr, dou uma ajeitada em meu casaco preto e meu cabelo, mas logo desisto, descobri há muito tempo que sou descabelada por natureza. Paro em frente à cafeteria e pelo vidro o vejo sentado na mesa mais afastada, olhando o relógio. Então sua atenção é desviada para a rua e lá estou eu, parada cheia de sacolas e com cabelos bagunçados. Ele faz um sinal apressado para eu entrar logo e eu dou uma das minhas risadas escandalosas.

Enquanto ando em direção à mesa dele, ele fica apenas lá sentado me encarando. Eu me sento na cadeira em frente a ele e largo minhas sacolas no chão e, não existem cumprimentos calorosos entre nós, somos assim, agimos como se não nos conhecêssemos, como se não compartilhássemos horas e palavras.

- Você tá atrasada- ele acusa e eu abro a boca pra protestar- e nem me venha com a desculpa do metrô lotado e que as pessoas não te deixam entrar nele. Eu vi suas sacolas gigantes.

- Não vou pedir desculpas, você sabe que elas não sinceras quando dirigidas a você- eu falo e ele ri- E enfim, eu preciso controlar esse meu consumismo – eu já me preparo para meu discurso psicológico sobre meu consumismo desenfreado, mas sou surpreendida com o toque da mão quente dele na minha, me perco nas minhas próprias palavras. - Me fala da sua semana, me distraia - e ele começa a me contar sobre suas últimas ressacas e sobre o fato de ter enjoado de ter ouvido o novo DVD do Metallica, o que me deixa muito surpresa por sinal.

Por algum motivo eu gosto de estar ali com ele, sem me importar com o tempo fora daquelas paredes de vidro, alheia ao que acontece ao meu redor. Ele vai falando sobre os últimos filmes que viu e eu falo sobre os livros que eu li. Ele me guia entre suas relações com filmes e eu o guio entre minhas historias malucas.

- Acho melhor te alimentar- ele diz quando eu acabo de lhe contar sobre a primeira vez que fui parar na diretoria, e antes que eu faça algum protesto, ele pede um pedaço de torta de morango. – Tô te devendo uma, lembra? – eu faço que sim com a cabeça meio incrédula por ele ter lembrado algo tão superficial que lhe pedi logo após nosso primeiro beijo.

A garçonete traz o pedaço de torta, junto com uma colher e eu peço pra ela me trazer mais uma colher. E ele arqueia uma sobrancelha.

-Ué, vamos comer nossa primeira torta juntos. Não é extremamente anormal pra nós? – eu digo dando uma risada. Damos a primeira colherada no pedaço juntos e ele acaba em segundos. E pedimos outro pedaço de torta e conversamos mais. E agora falamos sobre nossas famílias, e sobre como somos tão parecidos e mimados.

Ele fica admirado com fato de eu comer apenas sobremesas com a mão esquerda. Ele me faz rir quando me imita falando e passando as mãos nos cabelos. Ele não se importa quando eu o xingo dos nomes mais escrotos possíveis, e eu não finjo não me importar quando ele me elogia.

E falamos sobre músicas e sobre os futuros shows que vamos. E acabamos entre uma colherada e outra montando uma playlist para o show do U2- o que me faz rir por dentro por ter me feito lembrar alguém do passado- e decidimos ao final que o Bono não pode beijar a bandeira dos estados unidos novamente e nem chamar uma garota pra ele dar um selinho.

Rimos juntos por confessarmos que nos odiávamos muito mais há 3 meses atrás e que somos pessoas que não

sabem agir normalmente. Gostamos de Natal e decretamos leis para o mundo, não o nosso mundo particular, o mundo em geral.

- Está proibido falar que o Natal é uma época hipócrita!- ele fala levantando a colher e eu caio na risada. – E te achar metida a primeira vista, porque cá entre nós, eu achei isso. E emendo dizendo que te achei muito azeda também.

-Eu nem tenho cara de metida. - eu falo incrédula.

- Relaxa, eu já perdoei essa parte, só porque suas pernas são lindas.- ele ri e olha por debaixo da mesa e volta dizendo que acha uma pena eu usar calças jeans.

- Eu tiraria todo essa sua falta de escrúpulos e criaria mais homens com sardas, como você. - eu disparo e me arrependo logo em seguida, porque ele começa um discurso sobre como as sardas dele me seduzem. – Dá um tempo. – eu digo, enquanto sou servida por mais um pedaço de torta.

- Eu te daria mais tempo, você sempre diz que precisa de tempo. – ele diz, enquanto dá outra colherada no meu pedaço de torta. – E eu tiraria as placas de sinalização e os retornos... Seria muito mais fácil pra dirigir sem placas e pra retornar, eu apenas passaria por cima da grama e estaria do outro lado da pista. - E isso me faz rir, sempre dou risada com essa vontade de ser imprudente no transito que existe nele.

- Eu decreto que todas as terças-feiras seriam dias para comer torta e fazer compras- eu digo e ele grita “consumista”- e todas as sextas-feiras dia de beber cerveja- eu continuo sem dar bola e ele grita “bêbada” e caímos na risada.

Ele briga comigo quando eu olho o relógio, desvia minha atenção para qualquer outra coisa. E toda vez que nossas mãos se tocam, eu sinto o exercito de clones de Star Wars dentro do meu estomago. Confesso coisas que se passam na minha cabeça nos últimos tempos, minhas confissões são entregues a ele ali naquela cafeteria.

- E sabe, acho que estou cada dia mais perto do poço, como em Clube da Luta, como se eu tivesse mesmo uma marca feita por algum reagente químico em minha mão, como se eu quisesse mudar essa realidade, esse meu consumismo. Como se eu quisesse deixar minhas marcas nas pessoas, mas não soubesse como. – eu rio nervosa por toda minha paranóia- acho que na verdade, só quero que no final de cada dia meu toque “Where is my mind”.

- Acho que todo mundo dessa geração quer mudar algo de sua realidade, e eu acredito que seja uma boa causa para nós. – ele diz- você só não pode se tornar depressiva por isso. Ou bêbada. Se bem que já é tarde pra isso... Você quase bebe o mesmo tanto que eu.

- Menos, bem menos, por favor. – eu digo com minha cara de tédio que o faz rir horrores.

- Mas se você quiser eu dou um jeito de você sempre ouvir ‘where is my mind’ no final do dia. - ele diz.

- Tá ficando muito sentimental, pro meu gosto. - eu aponto a colher pra ele e ele ri coçando a barba por fazer.

- Você está muito longe de mim. – ele aponta para a mesa e eu digo que gosto

da distancia entre nós às vezes. E não nos pressionamos a nada, a entrar na rotina um do outro, porque achamos que na maioria dos casos, é essa falta de sossego que acaba com tudo, o casual é bom, e funciona para nós. Não vemos motivos para marcar futuros encontros ou planejar qualquer coisa, sabemos que estaremos lá naquele dia e naquele horário sempre que um quiser e precisar.

- Posso te confessar algo?- ele pergunta, largando a colher na mesa.

- Claro, contanto que não seja nada pervertido.- digo rápido e cruzo minhas mãos em cima da mesa.

- Nunca pensei que um dia teríamos uma conversa assim- ele continua- sempre vi você como uma pessoa cercada por muros impenetráveis, sei lá por que... acho que é porque eu sou assim também.

- É meio frustrante descobrir que sou vulnerável a você – eu seguro a mão dele - e que você é vulnerável a mim. Acho simplesmente tão surpreendente que nem sei criar um discurso psicológico pra isso, deixo essa parte para minhas amigas e minha mãe.

- Como você consegue ser assim? - ele me olha enquanto como mais um pedaço de torta sozinha- desse jeito tão debochado, sem se importar com seu cabelo ou com os palavrões que solta.

- Isso era pra ser um elogio?- eu olho incrédula pra ele.

- Sim. - ele diz, se encostando na cadeira.

Eu aponto a colher pra ele enquanto mastigo.

- Você vai acabar gostando de mim, sabia?- eu digo e volto a dar outra colherada na torta.

- Eu sei. – o ouço dizer. Levanto a cabeça, encontro o olhar dele e sorrimos. Um sorriso de cúmplices, como se ele acabasse de me contar um grande segredo e assim, eu me tornasse guardiã dele.

- Sabe, - eu digo e aponto para a torta com a colher- eu decreto que essa é a melhor torta de morango que já comi.

p.s. da narradora

é, somos assim.

e eu não sei escrever diálogos.

he’s asleep, i’m wide awake,

@PriiiG

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Alguém da Vida da Gente


Eu sonho com um reencontro. Que leve embora a saudade e traga os abraços mais pra perto.






Reencontrar aquele que um dia o carro vermelho levou embora e ouvir aquele sotaque bonito de novo.
Sentar no chão e assistir Cassino Royale em um belo fim de tarde ou receber aquela amiga em casa só para podermos assistir 'De Volta Para O Futuro" juntos.
Andar pelas ruas da cidade, mesmo em um dia sem sol.
Acordar pela manhã com um abraço apertado e muitas risadas.
Só que dessa vez sem a despedida no fim do dia.

Reencontrar os amigos que há muito saíram da minha vida, mas que fizeram toda a diferença nos meus dias.
Com músicas idiotas e conversas sem sentido.
Todos sentados no jardim rindo muito durante aqueles 20 minutos de intervalo entre as aulas.
Matar aulas só para poder colocar a conversa em dia sendo que nos vimos no dia anterior.
Ver as mesmas pessoas todos os dias e ainda assim morrer de saudade no fim de semana.
Pedir para que aquele dias nunca terminem, pois nada no mundo fará mais falta quando seus dias de adulto chegarem.


Sonho com o encontro também.
Encontrar aquele que atende pelo nome de Pequeno Príncipe mas que nunca apareceu por esses lados com seus olhos enigmáticos.
Aquele que quando crescer será mais poético que Raul Seixas, mas que hoje é mais lunático que qualquer pessoa psicodélica dos anos 70.
Que é o coringa de todo baralho e é responsável por qualquer interrogação que cruze o seu caminho.
O ser misterioso que não aparenta ter nenhum mistério.



Sonho em reencontrar os anos dourados que tive ao lado dos meus irmãos quando eu era pequena.
Quando acordavamos cedo só para assistirmos Thundercats e Caverna do Dragão.
Eu sentava do lado de fora do quarto deles, só pra poder ouvir as músicas que eles ouviam também. Pink Floyd, Soul Asylum e Ace of Base era a nossa trilha sonora.


Assim como todo mundo sou uma pessoa cheia de nostalgia.
Que os olhos enchem de lágrima quando acho no youtube a abertura daquele desenho que saiu do ar há muitos anos.
Que sabe cantar a música tema do "Get Along Gang" e já viu Goonies um zilhão de vezes e nem assim consegue enjoar.


Onde o presente tem muito do passado, traço meu caminho com um tanto de saudade.
- @JessyMcLovin

Monólogo de dois






- Arranjei um namorado
- E?
- E o quê?
- E o que é que tem?
- O que é que tem o quê? Eu ter arranjado um namorado?
- É, o que é que tem isso?
- Ah, queria te contar
- Por quê?
- Porque você é minha consciência
- Mas se eu sou a sua consciência eu já sabia disso certo?
- Certo?
- Então por que é que você queria me contar uma coisa que eu já sei?
- Porque me deu vontade oras! Faz tanto tempo que a gente não conversa...
- A culpa é da sua faculdade, nem vem brigar comigo
- Como é que eu posso brigar com a minha própria consciência?
- Qual é o rumo dessa conversa mesmo?
- Meu namorado
- É?
- É
- E ele é legal?
- Se ele não fosse por que diabos eu estaria com ele?
- Ele pode ser um babaca, mas ser ótimo na cama.
- Isso faz sentido
- E ele é bonito?
- Claro que é, pelo menos pra gente ele é...
- É rico?
- Que tipo de pergunta é essa?!
- Estou pensando na nossa aposentadoria
- Eu não vou casar com ele
- Então estou pensando nos nossos futuros presentes
- Interesseira
- Eu sou você esqueceu?
- Ah merda, to odeio as vezes
- A culpa não é minha se você faz cagada e eu que fico pesando na nossa cabeça
- Mas eu não fiz cagada nenhuma... Pelo menos não com ele
- Ainda
- Ou! Dá pra ser um pouquinho positiva e pensar em coisas boas?
- Eu sou a sua razão, não os seus sentimentos.
- E é uma vaca também
- Elogios a parte, você pretende seguir sua lista de resoluções de ano novo?
- Eu não to fazendo isso agora?
- Discutir comigo não é uma delas
- Mas o texto que eu vou extrair dessa conversa sim
- Te odeio as vezes
- E por que tanta hostilidade randômica?!
- Porque você sou eu, eu te amo e te odeio, preciso disso pra poder ficar junto de você.
- Bom, se eu te perder eu meio que acabo morrendo então acho meio óbvio isso não é?
- Agora me senti num casamento
- Horrível não?
- Nem me fala... Só de pensar já dá dor de cabeça
- Ah é, esqueci de falar
- O quê?
- Feliz ano novo.

- @Kuro_N3ko

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

sobre o tempo

pro tempo engatinhar do jeito que eu sempre quis.

- Vamos quebrar esse seu maldito relógio? – ele disse no meio da música, enquanto as luzes brincavam na minha pele.

Não consigo viver sem olhar meu relógio branco de pulso, estou presa no tempo, nas horas, nos minutos, no Sol que se vai e na Lua que chega.

Eu criaria dias maiores, os dias de trabalho teriam horas reduzidas e os dias para viver livremente sem se preocupar com nada teriam 40 horas. Assim, eu veria todos meus amigos, dançaríamos todas as musicas e beberíamos todos os shots de tequilas que agüentaríamos. E riríamos sem nos preocupar em voltar pra casa porque demoraria muito ainda pra amanhecer.

Eu daria mais horas pra vocês não fazerem nada ou lerem alguma coisa legal. Pra aprendermos mais palavras novas no dicionário, para olhar vitrines, escolher filmes e falar sobre vinis. Menos tempo no trânsito pra assim você conseguir entregar aquele livro do Pequeno Príncipe que você carrega debaixo do braço pro seu verdadeiro príncipe.

Tempo pra poder aprender a dirigir, pra poder fazer dinheiro, limpar a bagunça do quarto, armário e do carro. Pra pintar as paredes da cozinha, pra xingar mais, pra escrever cartas e enviá-las. Mais tempo pra ficar na sala vendo novela com a minha vó, mais tempo pra criar coragem e dizer todos os dias pra minha mãe que eu amo, de verdade. Mais tempo pra inventar piadas estúpidas com meu tio e minha prima.

Mais tempo pra sermos felizes, pra você se maquiar e escolher uma roupa adequada pro seu encontro de hoje à noite. Mais tempo para ver os amigos durante a semana, para fugir pra ver o mar, pra jogar vídeo-game, passar horas naquela fila do cinema e responder e-mails. Mais tempo pra reprimir as palavras lacradas dentro de mim, pra ficar no sofá vendo filme enquanto o Sol bate na janela e dar conselhos. Mais tempo pra ser um pouco menos fria, pra inventar novas manias e controlar a risada escandalosa.

Tempo para atravessar o mundo e tirar uma foto com anões de jardim, para ir até aquela cidade e dizer na cara dele que aquele beijo que ele te deu deixou um gosto amargo na sua boca. Tempo pra diminuir a distância entre um abraço e outro, pra contar minha vida para pessoas desconhecidas e pra ficar conversando besteira pelo telefone.

Criar mais tempo pros amores encontrarem seus lugares, os lugares que chamarão de lar. Mais tempo deitada no sofá, mais tempo para tirar uma soneca antes de ir trabalhar, pra atualizar minha vida e pra cortar meus cabelos. Pra comprar all star, sandálias e vestidos floridos, ingressos para aquele maldito show, churros e cerveja gelada que mata o calor.

Horas e minutos pra você planejar seu futuro, tomar café com seus novos amigos, se perder na Av. Paulista e pra matar saudade bebendo uma coca-cola gelada. Pra rirmos mais com historias contadas dentro do ultimo vagão do trem, pra dançar (sem saber) música dos anos 80, pra chorar sem motivos e sorrir enquanto seca as lágrimas.

Quebrar os despertadores e os relógios só pra você ficar mais tempo conversando na calçada com seus vizinhos, comer pizza com sua família e tirar fotos com seus amigos da escola, aqueles que você não vê há muito tempo, por causa do tempo.

Mais tempo para terminarmos aquele livro, pra acabarmos de contarmos aquela história maluca pelo messenger e pagar as contas. Escolher roupas novas, o que comer e o que sonhar acordada deitada na cama.

Pedir pra mãe mais 10 minutos dormindo, conversando ao telefone, tomando banho, se arrumando, dando amassos dentro do carro, usando o pc ou vendo aquele desenho.

Mais tempo pra inspiração ficar, mais dias dourados, mais dias de folga e tempo para as compras de Natal. Mais tempo na casa da amiga só pra acabarmos de beber aquele vinho que compramos, pra contar pra minha mãe sobre meu trabalho e tempo para acabarmos de jogar Uno enquanto vemos aqueles shows com roqueiros loiros e sarados. E mais tempo pra não nos importarmos em perder a hora, a carona e o último metrô de volta pra casa só pra poder sentir os lábios de alguém pela última vez na noite. Mais tempo pra dar 00h00, mais tempo nos abraços, comer torta de morango, brindes e 18 anos.

Tempo pra vivermos o verão, sem restrições e sem relógios.

p.s. da narradora:

achei correto escrever sobre o tempo nesse primeiro dia de verão – mesmo que o Sol não esteja brilhando por aqui, não quer dizer que não seja verão e que ele nunca mais vai brilhar.-, e no aniversário do blog, afinal, aniversário é algo nostálgico, até para um blog.

Eu nem tenho palavras bonitas e bobas pra falar sobre o 1º ano do DNME. Só sei que sinto um orgulho imenso por estar aqui compartilhando minhas palavras e sentimentos com vocês. Continuem bonitos, continuem se apaixonando, rindo e bebendo (suco ou cerveja), que nós continuamos por aqui escrevendo essas palavras tortas e um tanto bonitas pra vocês.

Cá entre nós, não deixem o verão pra mais tarde,

@PriiiG

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

pra você, querida

ou pra você que é de sagitário.

Eu poderia de muitas formas pedir desculpas pela coluna de dias até escrever essas palavras bobas minhas hoje aqui, acontece que você já sabe como eu sou displicente, e se não respondo e-mail, escrevo cartões ou telefono é porque falta tempo e sobra preguiça.

Eu criaria um dia de 36 horas só pra nós duas, você me contaria a sua vida de agora e eu te contaria todas as histórias que tenho vivido no trabalho. Eu juntaria nossos bairros e criaríamos a nossa cidade, cheia de casas coloridas bares, cinemas e docerias. Mais shows do Paul aqui e toda sexta-feira show da Cachorro Grande, porque todo mundo precisa de um capricho e homem usando gravata tocando rock.

Eu quero dizer que quero que você seja feliz, meu Deus, como eu quero isso. Que você sempre me mande e-mails com capítulos daquele livro que tentamos escrever e e-mails com desabafos, pois você sabe que eu tenho um dom especial pra dar conselhos. E que você sempre me ajude quando eu estiver meio perdida entre relações confusas.

Vou continuar puxando sua orelha quando você soar depressiva demais e marcando cinemas que nunca acontecem- prometo, nesse novo ano fazer um acontecer mesmo-. Te mostrar músicas novas pra você se apaixonar, chorar com todos seus depoimentos, ler os mesmos livros pervertidos que você e dar pulinhos quando você me mostrar cenas dos filmes do Depp.

Não quero que você suma por causa do tempo, quero que você continue por ai, lendo minhas palavras e me dando apelidos maravilhosos. Não quero sentir saudade de você, nem dos nossos dias dourados em que só estudávamos e enchíamos a barriga de besteira nas férias. Eu quero mais tempo, mais tempo com você pra vivermos nossos dias dourados novamente. Mais tempo pra você me contar as historias românticas do mundo da música e me explicar o que não entendo na gramática.

Continuar acreditando que já éramos amigas em outra vida, que vampiros brilham no sol e que você é louca pelo macarrão ao molho branco da minha vó. Acreditar que Kate Nash sempre falará por nós quando estivermos sufocadas e que você sempre será a cópia paulista da Norah Jones.

Que você chore por coisas bobas, sei lá, chore porque seu caderno não é da moranguinho, ria por coisas mais bestas ainda, abrace mais e seja mais abraçada. E não suma, não se perca nessa imensidão de pessoas que você conhece. Que em noites turbulentas as estrelas estejam lá por você, que você vá ver o mar e faça desenhos na areia. Milhões de balas de goma pra você, músicas do Killers pra você dançar, filmes franceses e livros pra você me dar spoilers.

E ah sim! Continue se apaixonando, não se prive do amor jamais. E não se preocupe, eu sempre estarei por aqui pra te proteger de qualquer cara que você vá se apaixonar.

Seus novos anos serão lindos, vai por mim, eu acredito nessas coisas. Acredito em você, no tempo, em taças de vinhos, nos bandolins, em “homens de verdade” que usam jaquetas de couro, nos livros que lemos, nos filmes que vemos e nas coisas que compartilhamos numa janela do messenger pela madrugada.

Acredito pra sempre que dias ensolarados serão sempre nossos dias para ouvir Rooney e nos entupir de bala de goma com sorvete.

E como é sempre necessário,

Eu te amo, feliz aniversário (atrasado) minha querida amiga.

p.s da narradora:

pra você garota dos olhos castanhos.

Happy in her own little world,

@PriiiG


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Je t'aime, monsieur

O tempo foi passando sem eu perceber, e acabei encontrando dificuldades das quais jamais imanei que teria, dizer que gostei disso seria hipocrisia, mas nada me deixou mais feliz do que fazer aulas de francês.
Começaria o curso amanhã bem cedo, e eu mal podia esperar.
Estava tão animada como nunca ficara antes.Totalmente diferente do primeiro dia de aula da minha vida, aqueles dias que eu chorava sempre, esperando dar a hora certa para que pudesse ver os rostos dos meus pais.
Mas agora eu era uma garota crescida, quase uma mulher, bem, tirando o fato de ter dezessete anos. Minha vida ficou bem melhor depois que entrei na faculdade de comércio exterior, já havia pensado em inúmeras, mas só esta poderia me fazer feliz de verdade.
Comecei o curso de francês porque minha chefe havia deixado claro que talvez ano que vem, eu fosse com ela para Paris.
Paris... a cidade das luzes. Uma cidade de artistas e poetas que vivem de inspiração e papéis. Eu não contei a ela, mas um de meus sonhos era visitar aquele lugar.
Em meus catorze anos de idade, comecei a ver filmes franceses. Romances e dramas levavam-me a um martírio de lágrimas sem fim, era sempre a mesma coisa.
Um amor não correspondido ou uma morte prematura, aquilo me deixava mais do que triste, ficava arrasada e afogava minhas mágoas debaixo dos cobertores.

O dia amanheceu nublado, do meu jeito favorito. O asfalto das ruas de Porto Alegre estava molhado devido a chuva repentina que ocorreu ontem, pelas quatro e meia da madrugada. E ainda assim, gotículas caiam do céu, dançando ao colidir com as folhas verdíssimas das árvores de minha rua.
O cheiro do orvalho lembrava muito o perfume de um amigo, e parecia estar fresco em minhas lembranças.
A escola ficava a poucos metros de minha casa, sempre a via quando passava pelo caminho de ida e volta ao colégio, desejando imensamente entrar lá para matar minha curiosidade.
Agora eu não precisava bancar a curiosa, era uma aluna como outra qualquer, e acreditem, isso me deixava extremamente feliz.
Cheguei por volta das sete horas, a aula só começaria em quinze minutos.
Decidi entrar na sala primeiro, conseguindo minha carteira lá no fundo. Eu era uma boa aluna, e me dedicaria ao máximo, mas odiava ser daquelas que só sabe sentar na primeira ou segunda carteira, nada contra, é pura preferência.
Aos poucos, a sala foi ficando cheia, e para a minha surpresa, só haviam garotas lá.
Todas de minha idade, talvez um pouco mais velhas, mas a classe não passava da fixa etária de 19.
A porta soou, e uma silhueta masculina apareceu, para meu alívio, talvez eu não fosse encarregada de ter o título de “aparentemente mais jovem”, um de “o único menino” seria alvo de atenção.
Mas o homem não sentou em carteiras, dirigiu-se para a mesa do professor, colocando os pés nela.

─ Bonjour

Por reflexo, levantei meu rosto na direção do som de sua voz. Então ele era o professor? Um cara que não tinha mais de vinte e cinco.
Ele acompanhou o meu olhar, como se pedisse para eu que retribuísse sua saudação.

─ Quel est votre nom?

─ Julia.

─ Jullie ─ Ele disse, usando um sotaque tão bonito que minhas mãos soaram.
E não era apenas o seu sotaque que era bonito. Ele não era comum, estava fora dele. Seus olhos eram tão expressivos, de um tom negro profundo. A pele branca e os lábios rosados o presenteavam com um ar tão sensual que sua postura desleixada não me incomodou mais.
Ele não precisava das regras de etiqueta para encantar alguém.

Distribuiu folhas, contendo poemas e músicas. De um lado em francês, do outro a tradução. Eu conhecia algumas músicas, mas nunca tive a curiosidade de ler os poemas. Justo os poemas ! Como fui burra.
Sabia que assim que chegasse em casa, iria ler todos os poemas que haviam sido escritos disponíveis na internet.
Um pouco antes de dar oito e quarenta, Leandro nos dispensou, e saiu antes de nós apressados.
Ouvi alguns comentários em relação a aula, outros em relação a ele e seu jeito de adolescente.
Eu imaginava que a adolescência era só uma fase, então por que ela não o deixou ? Se algo poderia deixá-lo, isto é, ao meu ver ? Impossível.
Oh sim, seu nome era Leandro. Um nome que não fazia alusão a nada, eu nunca havia conhecido alguém com esse nome, mas acredito que se conhecesse, a imagem da pessoa teria se dissipado para ser substituída pela dele.

Meu progresso nas aulas foi notável, e sem esforço tornei-me a melhor nas aulas. Animada, chegava pontualmente, sem faltas e sempre com algo novo para perguntar.
No fim da aula, ele pediu para que eu ficasse. E nosso diálogo foi mais ou menos assim :

─ Algum problema ?
─ Nenhum. Por quê ?
─ Não sei, você nunca pediu para que eu ficasse.
─ Não é nada demais, as vezes peço.
─ Hm... Então o quê é ?
─ De onde vem essa sede de poemas ? Você adora poetas, não é ?
─ Sim, é verdade. Mas nunca havia lido os franceses, agora que entendo um pouco melhor, leio um por dia, pelo menos.
─ Você escreve ?
─ Escrevo alguns, mas não são bons.
─ Eu posso ver ?
─ É para o curso ?
─ Não, só curiosidade. Você é um enigma, talvez pelas palavras, eu saiba o que está acontecendo com você.

Um baque. Ele desconfiaria que minhas mãos sempre suavam quando ele me perguntava algo? Seria uma espécie de “consulta psicológica” essa conversa?
Engoli em seco, fitando-o para absorver aquela beleza de um jeito patético. Eu sofria, cada vez que ele se calava eu sofria. Sofria com a ausência de sua voz.
Era ridículo e muito clichê, mas era certo que ele havia percebido algo.

─ Não entendo.

Ele abaixou o rosto, levantando o meu com a ponta dos dedos, era um tanto quanto alto, fizemos contato visual.

─ Por favor, me mostre.
─ Não são dignos de sua leitura.

Ele sorriu, acariciando minha bochecha com o polegar.
─ Eu posso decidir isso, não é?
─ Por que você... faz isso?
─ Não sou eu, é você. Tem idéia de como é difícil ser duas pessoas?
─ Duas?
─ Não finja que não entende, estou me sentindo humilhado por dizer isso a você sabendo que pode abandonar tudo isso por minhas bobagens. Ser poeta e ser professor soa com uma combinação particular, mas ser apaixonado e ser professor é impossível, entende o que eu quero dizer?

Afastei-me, enxergando a dor que ele sentia em seus olhos.
─ Eu entendo.
─ Não posso continuar assim, meu controle emocional é tão amador que me vejo como adolescente. Eu não consigo mais. Você se mostra tão interessante, que ao conhecê-la, vejo que é mentira, supera sua aparência. Você não pode me amar, Jullie.

Eu não podia, mas o amava. Queria dizer a ele, queria mostrar o quão meu coração dançava a cada poema lido.
Suas palavras eram de uma ternura da qual eu jamais poderia me esquecer, e eu sabia muitíssimo bem que mesmo daqui há alguns anos, eu lembraria de sua voz lendo-os.

─ Você quem não quer ser amado, mas é tarde, muito tarde. E por mais que eu veja nossos caminhos se distanciarem, você sempre estará presente em meus sonhos junto da Torre Eiffel.

E ele me abraçou, acalentando-me da maneira mais carinhosa que um homem poderia me dar. Tenho certeza que não precisei dizer com palavras claras o quanto o amava, deixei-as nítidas o suficiente para seu coração absorvê-las e guardá-las para sempre.




-@RahLovesIt

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Plunct Plact Zooooooooom

Ganhamos um dom assim que nascemos, mas ele tem prazo de validade.
Então é necessário aproveitá-lo ao máximo, pois ele dura pouco.
Alguns conseguem conservá-lo para sempre dentro de suas almas, outros o perdem antes mesmo que ele apareça.
Alguns deixam essa vida por viver com muita rapidez esse dom e outros vivem tão devagar que ele desaparece.
- Eu falo da juventude.

Como diz a musiquinha cliché: Existem jovens de 80 e poucos anos e também velhos de apenas 26.

A juventude é algo precioso demais para ser desperdiçado e vivido do jeito errado.


Faça mais amigos...mais planos
E não tenha medo de falar o que sente.
Encontre alguém para fugir com você ou fazer um filme.
Alguém para compartilhar uma trilha sonora ou alguns copos de bebida.
Alguém que te leve embora no seu disco voador e que no fim de tudo, te ajude a escrever um livro contando como foi que tudo aconteceu.
Que converse besteiras com você o dia todo e que mesmo distante está sempre perto.
Que tenham sotaque bonito e sempre ouçam o que você tem pra dizer.

Viva a juventude e deixe ela viver você.
A esperança do amanhã é o que nos faz continuar, mas só somos jovens por um dia.

Se o tempo te levar para o lugar errado, só tenha certeza de achar o caminho de volta.
E mais do que tudo, garanta que o seu coração não sirva apenas para bombear sangue.






O corajoso pode não viver eternamente, mas o cauteloso não vive plenamente.


Para o Peter Pan-Pequeno Príncipe-Dreamer da minha timeline - Matheus



- Forever young, I wanna be forever young.
@JessyMcLovin

terça-feira, 9 de novembro de 2010

don't change one thing

Tomorrow's just a song away, a song away, a song away




Seus belos 17 anos desfigurados com o término de um namoro convencional (ou não, depende do ponto de vista). Ela decide naquela noite, depois daquela última ligação que vai rasgar as folhas, os livros e calar as músicas que o trouxessem de volta. Ela entra na noite fria com sua nova camiseta do Batman, gritando ao mundo que está bem.

E na verdade, ela está bem mesmo. Nunca esteve tão bem em toda a sua vida. Sem ele, ela aprende os prazeres de se estar sozinha e de ter o coração batendo regularmente. Por ora, ela não quer mais sentir o descompasso do coração. Ela quer ser um gigante, um telescópio, um pássaro ou uma onda.


Ela quer sentir o sol em sua pele, o vento em seu cabelo e sonhar com aquele garoto da praia, aquele que ela conheceu enquanto pulava as pedras daquela praia, aquele que a resgatou enquanto ela perdida estava sentada na areia pensando o que teria que sobreviver a seguir. O garoto que fazia tudo ser mais fácil. O garoto que um dia ela se viu obrigada a fechar a porta pra amar aquele que estava separado dela por estradas.


Ela é apenas uma garota de 17 anos com um grito que pode ser baixo ainda na multidão, mas por onde ela passa deixa sua essência, seus sonhos, histórias e músicas. Ela observa em silêncio e ri em voz alta, não sabe amar pela metade e muito menos aceitar uma história sem fim.


Por muitas vezes ela é apenas uma garota que sempre olha pro relógio quando os ponteiros estão parados no mesmo lugar; como se aqueles ponteiros resumissem sua vida amorosa, ela é o ponteiro grande tentando acompanhar o ponteiro pequeno, tentando acompanhar as horas e historias daquele garoto da praia. Ela é só uma garota que expressa seus sentimentos com textos escritos na última folha do caderno, rodeada de amigos ensolarados e amigos distantes. Uma garota com o quarto abarrotado de músicas e livros que ela respira todos os dias.


Por ora, ela está feliz e sem ele, pela primeira vez em quase dois anos, ela realmente gosta da distância entre os Estados. Os amigos dizem que o sorriso dela nas fotos nunca foi tão sincero e leve como agora e lá no fundo ela sente que isso é apenas o começo, que lá no fundo ela já forma um grito mais alto e que a vida começa agora, cheia de altos e baixos. E que outros sonhos surgirão, outras modas, outras musicas, outros grãos de areia. E que depois da chuva, flores lindas crescem de vez e ai vem o sol, fazer tudo ficar bem de vez. Ela quer o sol, ela quer as noites pra sair e ver as luzes da cidade maravilhosa e dançar com o vento depois de beber um shot de tequila com os amigos e depois ficar preocupada se os pais sentiram o cheiro de bebida em sua roupa.


Ela só quer continuar dando sorrisos sinceros em fotos.


Ela senta na areia da praia, cantarolando aquela música, enumerando historias bonitas que contaram a ela, jogando um pouco da bagagem emocional no mar e sorrindo ao ver as ondas quebrarem nas pedras.
Então volta pra casa, respira as palavras de seus livros e a melodia de suas músicas. E deixa a porta aberta pro garoto da praia, e fica o esperando com um bolo, chá gelado e vestido rendado.

p.s. da narradora:

pra garota que mora no lugar mais ensolarado, porque quando foi preciso nos apoiamos uma na outra pra agüentar aquela tempestade nojenta. Pra você, garota de 17 anos, que é muito parecida comigo às vezes. E essas palavras não chegam nem aos pés das que você escreve pra nós.
E ah sim! Eu não sei escrever contos. (:


here comes the sun and I say it's all right,
@PriiiG

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Relatividade.


O tempo passa rápido.

Não importa se você esteja se divertindo ou se esteja quase batendo a sua cabeça contra a parede de tédio, o tempo VAI passar. De fato, ele já passou, corre feito louco conforme meus dedos se encontram com as teclas do teclado. Ele não para de correr, não para pra descansar pois não precisa, não bebe água ou qualquer outro líquido pra repor as energias.


Ele não sente fome.

Ele não sente frio.

Não sente cansaço, muito menos sono.

E não adianta tentar impedi-lo, isso só o fará ir mais rápido, se tentar correr contra ele, ele vai ganhar de você. Ele SEMPRE ganha. Tudo o que nos resta fazer é acompanhar o seu ritmo ou não ficar para trás, porque ele não liga pra você, não se importa se você está doente, se caiu e machucou o joelho ou se não teve horas suficientes de sono.

Não adianta evitar dormir pois, mesmo acordado, ele vai continuar a correr. O tempo é o pior zumbi de todos, não há arma que o mate, não há barreira que o pare, não há nada que possa cortar suas pernas ou prendê-lo contra a parede.

Nós somos escravos do tempo, ele não liga se temos namorados, se temos trabalhos da faculdade para fazer, se temos fome ou sono, se precisamos de um emprego ou se só queremos ficar em casa largados no sofá vendo tevê ou se queremos que a noite nunca acabasse.

A noite vai acabar, o prazo de entrega vai se esgotar, alguém vai ocupar a sua vaga de emprego, você vai querer comer alguma coisa, vai querer dormir ao ponto da exaustão física, aquele programa legal vai terminar e o seu namorado vai ficar com saudade de você.

Isso tudo é inevitável, as gerações passam, a moda muda e só o que realmente importa fica. Os cortes de cabelo se reinventam e a cada dia que passa mais eu me pergunto se devo amar ou odiar esse vilão presente em todas as nossas vidas, enquanto a resposta não vem, eu corro, porque essa é a minha única alternativa.


@Kuro_N3ko

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mamihlapinatapai


Sea Green, See Blue by Jaymay on Grooveshark

 Ela não tinha uma vida medíocre. Eu acredito...
Não estava longe dos 30 mas não estava mais perto dos 20 também.
Tinha um emprego bom, porém nunca conseguia pagar suas contas. 19 horas do seu dia eram consumidas por afazeres e as outras 5 horas ela tentava dormir.
Dessas 5 horas tentando dormir apenas 3 eram bem sucedidas.

Levava seus dias baseados na rotina que há 7 anos a consumia. Quase nunca tinha tempo pra encontrar com os amigos ou mesmo pra sentar e assistir a algum filme.
Não tinha olheiras porque no caminho para o trabalho as escondia com uma boa camada de maquiagem.
Sempre foi muito atraente, mas nunca teve muito tempo pra namorar. Dizia que era bom manter uma distância confortável de qualquer coisa que pudesse quebrar seu coração.

Aos 18 anos abandonou o que mais amava fazer, escrever. Na mesma época que começou a trabalhar.
E guardou uma frase dita a ela em um dia de muita correria no trabalho:
- Você abandonou a arte pela burocracia.
E naquele momento ela sabia que estava em um caminho sem volta.
Sem coragem pra mudar, sem tempo pra viver, sem vontade de tentar algo diferente.

Em uma quarta-feira, ela acordou atrasada como sempre, vestiu a primeira roupa que encontrou e saiu às pressas de casa. Nesse dia ela não teve tempo de fazer a maquiagem costumeira pra esconder as olheiras e nem tomou o café que a fazia despertar mais rápido.

Ainda no metro a caminho para o trabalho ela lia o mesmo livro pela terceira vez.
De repente as luzes se apagaram e tudo parou.

- Hoje é meu dia de sorte. Metro sem energia só pode ser brincadeira. - ela murmurou com os olhos ainda fixos no livro.

Passado mais de vinte minutos todos os passageiros estavam começando a ficar sem paciência, ela principalmente. Até que lembrou que estava com o seu Ipod na bolsa e isso seria a salvação daqueles minutos infinitos.

Deu play na primeira música do Velvet Underground que conseguiu achar na sua playlist. Agora aquele momento estava menos ruim.
Começou a observar o rosto das pessoas, um mais mal humorado que o outro.
Exceto um, ele era realmente muito atraente, alguém não mais velho que 24 anos mesmo tendo a barba por fazer e roupas um tanto quanto relaxadas.
Ele tinha a aparência de calmo e aquela serenidade a hipnotizou por alguns minutos. Até que ela percebeu que ele também a estava olhando e logo ruborizou. Parou de olhar pra ele e voltou para o seu livro.


Ela sentiu alguém sentar do seu lado, era ele.
Todo gentil puxou conversa sobre o que ela estava ouvindo. Velvet Underground era a banda favorita dele. Conversaram pelos próximos 15 minutos sobre tudo o que vinha a cabeça. Tinham muito em comum e o sorriso dele era algo inédito pra ela, nunca tinha visto um tão bonito.
Trocaram telefones e o metro voltou a funcionar. Ele ligou pra ela no mesmo dia e marcaram de sair na próxima semana. Passaram o resto do dia a lembrar um do outro.

Ela nunca tinha encontrado alguém tão perfeito assim e o começo do namoro foi inevitável. Descobriram que o amor estava surgindo entre eles e que só aquilo importava.
Depois de dois anos alugaram um casa e começaram a morar juntos e cinco anos depois do acaso do Metro o amor deles não diminuiu. Ainda ouvem músicas juntos e nunca falta assunto.




Mas não foi isso que aconteceu, na verdade assim que ele olhou pra ela durante aqueles segundos o metro voltou a funcionar.
As portas abriram, ela colocou o livro na bolsa e saiu em direção ao trabalho.
Ele olhou pra ela através da janela, enquanto ela sumia em meio as outras pessoas. Ele desceu 5 estações a frente.
E nunca mais se viram.





Mamihlapinatapai na língua dos índios yámanas, que habitavam a região da Terra do Fogo na Argentina, que traduz o momento em que duas pessoas se olham, ambas esperando que a outra inicie algo que desejam muito, mas nenhuma tem coragem de começar.



Cheers
@JessyMcLovin

terça-feira, 19 de outubro de 2010

pela delicadeza.

novas cores, amores e novas canções.

Modern Nature by Sondre Lerche on Grooveshark



Protesto pela delicadeza. Pela música que não tocou naquele show, pela calça jeans que estava cara demais. Protesto por não saber falar de política, por não ser um pouco mais alta. Por não poder ter um cachorro e sempre demorar pra me arrumar.

Protesto para que as pessoas entendam meu sarcasmo, minha carência e minha sinceridade. Protesto por aqueles que observam em silêncio, pelos desenhos da minha infância que não passam mais na TV, pela falta de cajuzinho nas festas de aniversário e juízo.


Protesto por aqueles que riem alto como eu, por aquela que quase foi inimiga e hoje compartilha comigo novos caminhos e pelas piadas de trabalho. Pelas filas no cinema no feriado. Protesto pela dignidade, escadas e pela superficialidade que às vezes é boa. Protesto pela minha falta de noção, por meus problemas, minha conta bancária sempre vermelha e por aquele all star verde que minha mãe insiste em querer jogar fora.
Protesto pelos vocalistas, tocadores de ukelele e pseudo-escritores como eu. Pelos amigos que moram longe de mim, contra minhas pedras nos rins, calças coloridas e modismo em massa. Protesto por aquelas coisas que queremos tatuar, pelo cigarro acesso num dia frio e estressante.


Protesto por aqueles que gostam dos mesmos filmes que eu, que sentem como eu sinto. Protesto pela paçoquinha que me satisfaz mais que a barra de chocolate, pela comida da minha vó e por não saber atender o celular na hora.


Protesto por você que espera um futuro bom, você que alimenta sonhos e os constrói. Protesto por não saber fazer trança, andar de bicicleta e não ser canhota. Por não escrever mais cartas, por não ver mais meus amigos como antigamente, por ter mudado tanto nos últimos anos, pelos meus 18 anos e por aquele ano que foi o melhor da minha vida.


Protesto contra o horário de verão que rouba uma hora do meu dia sem pedir licença, contra você que ama por comodismo e a favor de todos nós que temos medo de amar e quebrar a cara.


Protesto pela distância, pela saudade, perda e para que o dia tenha mais que 24 horas. Pelo sol não ter aparecido no dia que iríamos à praia, pela felicidade da minha família e por brinquedos sensacionais para meus primos. Protesto para ter mais tempo com a minha prima, mais alguns minutos para dormir e mais anéis e vestidos. Mais recados, e-mails, sms e conversas pelo messenger. Mais apelidos, mais bandas boas, mais coletâneas. Protesto contra a gripe, matemática e sentimentos falsos.


Protesto por nós que queremos ser ouvidos na multidão, pelos dias de ócio e manias novas. Por aquele que ainda gosta de mim depois de tanto tempo e por não poder ser recíproca a ele. Pelo meu sarcasmo matinal e meus cabelos despenteados.


Protesto pela falta de shows bonitos e pela falta de pintas no meu corpo (quero mais, muito mais). Pelo preço absurdo daquele jogo, pela internet que insiste em cair e pelas madrugadas vendo “Vila Sésamo”. Pela necessidade de falar, por não saber abraçar e escrever cartões de natal.


Eu protesto por todas as 
coisas que me fazem feliz e por todas as coisas que fazem qualquer pessoa da minha vida sorrir. Protesto contra qualquer um que nos queira mal, contra remakes mal feitos e ciúmes. Protesto para ter mais tempo para cantar, ter mais inspiração e livros. Para poder comer a sobremesa antes, comer pipoca no café da manhã e para nunca envelhecer.
Por todas as palavras, ligações, segredos, passados, presentes, futuros, festas de aniversário, sentimentos, shows, filmes e vinis raros. Protesto pra sorrir mais, ser mais leve, pra falar menos palavrão e conhecer mais lugares. Protesto pelas músicas dos amantes, rodas de ciranda e conversas pela madrugadas. Protesto para que tenhamos a história mais linda já escrita, para que sejamos eternos e para que óculos escuros e cachecóis estejam sempre na moda.

Protesto por mim, por você, por ela, por ele, pelos meses, pelo tempo, sextas-feiras e futebol. Protesto para que nossos dias dourados nunca acabem. Protesto. E, sobretudo, pela delicadeza.

p.s. da narradora:
protesto para que esses dias durem para sempre.

Protestem hoje,
@PriiiG

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Chuva e alguma linguagem


Hoje, o Decepção conta com uma participação linda, da nossa querida amiga distante (mas nunca ausente) Sandrine Faria, que está longe de nós mas sempre presente com sua poesia, conselhos, sarcasmo e amizade.
Porque não podemos nos abraçar quando é preciso, mas tendo um texto dela aqui no Decepção já diminui a distância.

Uma das coisas mais bonitas que já li sobre o amor e a chuva. Deixo vocês meus lindos leitores com a querida Sandrine

@PriiiG






Era mais uma dessas manhãs que começam chovendo e quando a gente acorda implora pra continuar assim o dia todo. Chovia, chovia, uma chuva calma, porém incessante. Como de costume, fui até a varanda, sentei-me ao banco, acendi um cigarro e fiquei apreciando toda aquela água desaguar. Ver a água cair é um espetáculo à parte e totalmente impagável. Se um dia alguém tentar pagar o que se sente quando a chuva cai não encontrará uma única moeda. E o céu nublado, cinza, coisa mais linda. Dias cinzas são os mais alegres. E sempre que o dia está cinza eu repito "Quero dias cinzas todos os dias".


Só havia eu e o vento, e agora alguns passos. Veio em minha direção, cabelos ao vento, camisa larga, sem calças e com uma tal calma. Já não sabia mais se ouvia o vento ou a sua respiração. Sentou-se sem dizer uma só palavra ao meu lado, encostou a cabeça no meu ombro enquanto eu olhava para o horizonte e consumia o cigarro. Não me movi, não se moveu, ficamos ali apenas. Tomou o cigarro da minha boca e riu. Abaixou a cabeça, deu a última tragada possível e o jogou. Eu fiquei olhando, era a coisa mais dócil a se fazer. E rimos. Voltei ao meu estado inicial de fixação no horizonte molhado de chuva, passou os braços pela minha cintura e voltou a colocar a cabeça em meu ombro. Retribui e inclinei a cabeça sobre aquela que estava a me fazer peso ao ombro esquerdo.


- Já viu em outro lugar algo mais lindo? - Perguntei.
-Refere-se à que? À chuva ou à paisagem?
-O conjunto.
-E quanto dura o seu sempre?

-Meu sempre é a vida toda.
-Vai viver a vida toda na chuva?
-Eu disse "Essa água que cai será você um dia a me inundar de alegria", mas não quero um dia, quero todos os dias.
-Espero que a máquina de secar roupas sobreviva.


Rimos e rimos. Só haviam palavras dóceis ali. Jamais, em momento algum, havia ausência de calma ou qualquer tipo de alteração de ânimos. Sempre havia o mesmo padrão na expressão, nem excessiva, nem ausente, na neutralidade. Aos olhos alheios, tudo o que disséssemos seriam sempre diálogos frios, mas para nós eram os mais elaborados. 


-Vai querer ser minha chuva ou vou ter que morar no chuveiro?
-Se você não gripar, nem ficar o dia todo na cama por causa disso, serei a sua chuva
-Mas e se eu ficar na cama, hein?
-Aí a gente fica por lá, que tal?
-E daí você vai chover todos os dias na minha cama?
-Vou pensar... - Olhou me rindo e abaixou a cabeça. 


Tomei-lhe as mãos, me coloquei frente à face, e abraçei-lhe. Era do tipo de abraço que nenhum algodão seria o mais confortável. Aquele abraço que dá vontade de esquecer a casa e querer morar nele. Era o abraço que dava vontade de querer morar dentro daquele ser só pra jamais ousar se perder em outros braços. 


-Por favor, não me venha com dias ensolarados, eu quero que seja meu céu cinza - Eu disse
-Sem nenhuma claridade, prometido.
-Sem ironias, quero que seja todas as minhas hipérboles.
-Você nem precisa de mim pra isso, já é a hipérbole em pessoa -Falou rindo.
-Minhas hipérboles são dignas do nome somente quando se referem à você, caso contrário se tornam dramas frustrados.
-Serei, então, todas as suas hipérboles, e dramas, e ironias ...
-E meus gerundismos!
-Por que quer que eu seja seus gerundismos?
-Quero que seja meus gerundismos pra dizer que estou chorando, rindo, me desfazendo, derretendo, fortalecendo, enfraquecendo, me apaixonando e amando a cada dia mais você.


Vi naqueles olhos uma ameaça de lágrimas, mas se conteve, e me deu um riso. Porém, um riso que queria chorar de uma certa alegria. E ainda chovia, chovia, mas naquelas olhos não chovia, só uma espécie interminável de alegria. E abraçou-me, quis praticar meu gerundismo me derretendo, me desfazendo, me apaixonando.


-Fiz o café do jeito que gosta.
-Forte e doce?
-Exatamente. E acho melhor ir tomar antes que esfrie.
-Café nunca é o mesmo depois de aquecer, porém o amor é único que esfriando ou aquecendo continua o mesmo
-Só perde o gosto
-Só perde o gosto o amor que esfria ou esquenta se não é amor de verdade
-E o seu amor, perde o gosto?
-O meu amor é aquele que sofre, se contenta, esfria, aquece, esquece e lembra, mas continua o mesmo. E o seu?
-Sem mais, eu amo você e o seu amor.
-E eu amo você, seu amor, essa camisa e seu café.
Puxou-me pela mão, rindo, com aqueles passos leves, a pele fria e me pôs pra dentro. Fechou a porta, e chovia. Ainda bem que fechou a porta, porque depois do café eu estava querendo tomar aquela chuva na cama, com todas as hipérboles e gerundismos possíveis.

@SandrineFaria